domingo, 27 de maio de 2012

Carta a um amigo

Prezado amigo,

 Como vão as coisa?
Te escrevo para dizer que estamos com saudades de ti. Sentimos falta de tuas idéias revolucionárias e criativas. Restaram-nos agora novelinhas de romance para assistir. Incomoda-me tanta paz em nosso movimento. As pessoas andam sorridentes e contentes demais para meu gosto. Digo-te mais: novas carnes já chegam se achando bife de primeira, e logo aderem ao partido dos elevados de espírito. É lamentável notar que a idéia de termos novatos sendo convidados para um relacionamento longo e benéfico não está funcionando. Os mais antigos, como tu, foram exilados também. Não fiz metade do que fizeste, mas já sinto a sutileza de coisas esquisitas acontecendo... Eu ouvi dizer que perdeste o tesão em nós, e confesso lamentar profundamente. Pois nunca vi mais viceral amor do que o teu. Teu lugar sempre foi esta casa. Tu nasceste, criaste e cresceste  aqui.
Minha preocupação é o rumor de que andas bebendo para esquecer. Te esclareço algo: beber só vai aumentar a vontade de lembrar, pois como disse o nosso mestre Chaplin: "A verdadeiro caráter de um homem se mostra quando ele está bêbado". Volte pra casa, rapaz, ou pelo menos nos diga pra onde vais...

Gleydson Góes


sexta-feira, 25 de maio de 2012

João Cândido Portinari

"A arte é o espelho da pátria. 
O país que não preserva seus valores culturais jamais verá a imagem da sua própria alma." (Chopin)

O Analfabeto Político (Bertold Brecht)


"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

terça-feira, 15 de maio de 2012

Fim dos habitantes do Mundo

Se caísse um meteoro gigantesco agora sobre as cabeças desses cerca de 7 bilhões de animais que se intitulam "racionais", e os surpreendesse de maneira devastadora; a terra, certamente, não sentiria a menor falta dos ditos cujos... 
Em vez disso, se alimentaria deles. E de maneira natural se auto-ajustaria.

Porém, se apenas uma porção do planeta desses bípedes idiotas e mesquinhos fosse atingida, e suas funções naturais, como temperatura, nível dos mares e  o movimento das placas tectônicas sofressem drástica alteração, sem dúvida alguma os "civilizados" amargariam as conseqüências.

Chego a conclusão que somos todos intrusos num planeta completo, cheio de seres microscópicos poderosos, cujas peças se encaixam perfeitamente e que é altamente indiferente à nossa "significância".

Penso eu que, se o planeta terra pudesse pensar, com certeza se sentiria finalmente em paz pela diluição de seres que, como carrapatos, ou se preferirmos piolhos, exploram as riquezas do mundo e depois acabam por se devorarem uns aos outros para ver quais deles se tornarão o mais gordos e cheios de posses.

Para concluir, acho muito engraçado tudo aquilo que dizemos ser coisas sérias de verdade, e de alta responsabilidade, pois somos os seres que menos se preocupam com a seriedade das coisas, pois deturpamos os valores de tudo que tocamos para satisfação de nosso próprio ego.

Tudo bem... Pode ser que eu esteja "generalizando" demais. Porém, ao lembrar que a desordem em que organizadamente vivemos é generalizada, me perdôo e durmo em paz!

Gleydson Góes 

domingo, 6 de maio de 2012

Menino de Engenho

Com agulha de tricô nas mãos, dona Zezinha modela um mimo para o netinho do coração, o filho de Eduardo. Contou-me com algo de pesar nos olhos, que Eduardo, depois de ter virado pai, pensava ajuntar-se de vez com a mulher.

"Ah, como vai fazê falta, meu fio... Mas fico feliz porque ele tem que cuidá da família dele, né verdade?"

Eu meneava a cabeça positivamente...

"Lembro-me como se fosse há 14 anos atrás: Eduardinho passava com uma garrafa de plástico pra pescá... Amarelinho do cabelo enrolado, que só veno. Naquela época ele morava só com o pai, seu Agenor, num sítio distante. Foi quando João chamou ele pra pastorá boi mais os minino... Sabe? Teve uma vez que o bichinho pegou meu Omo e polvilhou por cima da roupa, rapai, estirada na beira do rio, pareceno uma tapioca com farinha por cima." 

 Dona Zezinha ri da lembrança. 

"Aí eu peguei e disse a ele: meu fio, deixe uma parêa de roupa que eu lavo pra você. Foi a última vez que ele lavou roupa, meu fio. Já tá com 28 anos, meu rapaz... Seu Agenor disse que a mãe dele tinha ido embora quando ele completou 08 anos de idade. Pronto... Dali pra frente foi só seu Agenor e Eduardo. Sim, voltando ao assunto: como o sítio que ele morava era longe, ele passou a dormir lá em casa. Os anos se passou e o pai dele casou de novo, mas ele ficou com a gente. João, meu marido, gostava dele porque era um minino esforçado que só!
Aí, quando a gente se mudou pra cidade, por causa da barrage, ele veio também. Fico toda orgulhosa quando ele apresenta os minino como irmão e irmã... Me chama de mãe até hoje, e nunca deixou de me ajudar quando eu mais precisei, meu fio... Perto??? Eu sei que ele não vai pra longe. Mas o vento vive perto e ninguém consegue abraçá ele, né meu fio? Ha, ha, ha..."

Dona Zezinha faz silêncio por alguns segundos; quase exatamente 60 segundos.

"Qué mais café, meu fio?"

Passam das 16h30 quando tomei a última xícara de café. Volto pra casa sob chuva fina, sendo de longe observado pela velha avó, mãe e amiga dona Zezinha. Meu Deus, que café gostoso! 
Dona Zezinha me fez ter "pena" do mundo inteiro, que caminha segamente, à passos longos, para o desenvolvimentismo, para o piso asfaltado quente e frio, para os produtos em escala industrial, para a massificação das pessoas, dos pensamentos, dos sentimentos...

Ah, dona Zezinha, quem dera o mundo todo fosse tão doce quanto teu coração, que só expira amor.

Gleydson Góes

20 Anos Blues (Elis Regina)

Porque hoje eu me senti meio blues, mas nada consegui falar...
Que a música fale por mim!