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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Posto em Miúdos

Como falar de amor entre nós que mal acreditamos em Deus, e pouco sabemos sobre os mistérios da humanidade e o sentido dos homens?
Para mim falamos o que vem à cabeça em momentos de prosa, dependendo do ambiente, do tempo e do que do se ingere.
Não posso negar que em muitos momentos eu vi brilho em teu olhar fraternal; assim: de adimiração e alegria por estarmos filosofando e fazendo-nos promessas.
Todavia, duvido muito que no outro dia esses pensamentos continuem os mesmos em tua cabeça.
E nada duvido que vejas em mim um vilão ou um desorientado que carece de idiologia, contrapondo, drasticamente, as primeiras impressões que, em tese, seriam sempre as que deveriam ficar...
Posto em miúdos: nada do que prometemos teremos certeza de cumprir, pois a vida é exaustivamente cíclica e inconstante, assim como nós.


 Kurt Spörk

domingo, 6 de maio de 2012

Menino de Engenho

Com agulha de tricô nas mãos, dona Zezinha modela um mimo para o netinho do coração, o filho de Eduardo. Contou-me com algo de pesar nos olhos, que Eduardo, depois de ter virado pai, pensava ajuntar-se de vez com a mulher.

"Ah, como vai fazê falta, meu fio... Mas fico feliz porque ele tem que cuidá da família dele, né verdade?"

Eu meneava a cabeça positivamente...

"Lembro-me como se fosse há 14 anos atrás: Eduardinho passava com uma garrafa de plástico pra pescá... Amarelinho do cabelo enrolado, que só veno. Naquela época ele morava só com o pai, seu Agenor, num sítio distante. Foi quando João chamou ele pra pastorá boi mais os minino... Sabe? Teve uma vez que o bichinho pegou meu Omo e polvilhou por cima da roupa, rapai, estirada na beira do rio, pareceno uma tapioca com farinha por cima." 

 Dona Zezinha ri da lembrança. 

"Aí eu peguei e disse a ele: meu fio, deixe uma parêa de roupa que eu lavo pra você. Foi a última vez que ele lavou roupa, meu fio. Já tá com 28 anos, meu rapaz... Seu Agenor disse que a mãe dele tinha ido embora quando ele completou 08 anos de idade. Pronto... Dali pra frente foi só seu Agenor e Eduardo. Sim, voltando ao assunto: como o sítio que ele morava era longe, ele passou a dormir lá em casa. Os anos se passou e o pai dele casou de novo, mas ele ficou com a gente. João, meu marido, gostava dele porque era um minino esforçado que só!
Aí, quando a gente se mudou pra cidade, por causa da barrage, ele veio também. Fico toda orgulhosa quando ele apresenta os minino como irmão e irmã... Me chama de mãe até hoje, e nunca deixou de me ajudar quando eu mais precisei, meu fio... Perto??? Eu sei que ele não vai pra longe. Mas o vento vive perto e ninguém consegue abraçá ele, né meu fio? Ha, ha, ha..."

Dona Zezinha faz silêncio por alguns segundos; quase exatamente 60 segundos.

"Qué mais café, meu fio?"

Passam das 16h30 quando tomei a última xícara de café. Volto pra casa sob chuva fina, sendo de longe observado pela velha avó, mãe e amiga dona Zezinha. Meu Deus, que café gostoso! 
Dona Zezinha me fez ter "pena" do mundo inteiro, que caminha segamente, à passos longos, para o desenvolvimentismo, para o piso asfaltado quente e frio, para os produtos em escala industrial, para a massificação das pessoas, dos pensamentos, dos sentimentos...

Ah, dona Zezinha, quem dera o mundo todo fosse tão doce quanto teu coração, que só expira amor.

Gleydson Góes